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Futebol, outros esportes e marketing digital por Gustavo Andrade

Alex Muralha no Flamengo e o limite entre a crítica e a perseguição

Muralha no Flamengo

“Você sabe que, quando entro em quadra, eu dou tudo de mim pelo jogo? Quando estou na quadra, tudo fica de lado. E nenhum de vocês entende isso, porque nenhum de vocês joga”. A declaração dada por John McEnroe foi retratada no filme Borg vs McEnroe, que leva ao cinema uma das maiores rivalidades da história do tênis.

Borg vs McEnroe mostra claramente como a pressão por resultados transforma e molda atletas de alto nível. Além de uma gigantesca cobrança da imprensa, esses esportistas convivem com a autocrítica, o desejo incessante por estarem no topo. A pressão pode ser tamanha que gênios do esporte, como Bjorn Borg, encerram suas carreiras precocentemente – pentacampeão de Wimbledon e hexacampeão de Roland Garros, o tenista sueco abandonou as quadras aos 26 anos.

O principal exemplo recente de cobrança sobre um atleta no esporte brasileiro se concentra em um goleiro. As más atuações de Alex Muralha no Flamengo tornaram o arqueiro um vilão para os torcedores rubro-negros e um alvo para os críticos.

A pressão sobre Muralha tem sido tão grande que se iniciou uma discussão: até que ponto a crítica pode ser feita sem se tornar perseguição?

Muralha no Flamengo: da Seleção Brasileira ao ódio do torcedor

Alex Muralha foi contratado pelo Flamengo depois de se destacar no Figueirense. No time carioca, manteve um bom nível de atuações e se posicionou como um dos principais goleiros do Brasil. No início de sua trajetória na Seleção Brasileira, Tite o convocou para quatro partidas, mas o arqueiro rubro-negro não entrou em campo.

Muralha, entretanto, não conseguiu permanecer com consistência e passou a conviver com falhas. Assim, o Flamengo trouxe de volta ao futebol brasileiro Diego Alves, que defendia o Valencia e estava no futebol espanhol desde que brilhou no início da carreira pelo Atlético.

Mas algumas circunstâncias levaram Muralha a estar à frente do Flamengo em momentos decisivos da temporada 2017. Por Diego Alves ter sido contratado depois do período de inscrição para a Copa do Brasil, ele não pôde defender o time comandado por Reinaldo Rueda nas fases decisivas da Copa do Brasil.

Outra opção para defender a meta rubro-negro, Thiago se lesionou. Muralha foi o goleiro titular do Flamengo na decisão contra o Cruzeiro, teve a oportunidade de virar herói, mas não defendeu nenhum pênalti na disputa pela taça. Sua atuação gerou uma série de memes e o colocou novamente na berlinda.

Humilhação e execração pública

Naquele momento, o goleiro já convivia com críticas pesadas da imprensa. O jornal Extra passou a adotar seu nome composto, Alex Rodrigo, alegando que as falhas o fizeram perder o direito de ser chamado pelo apelido. Muralha definiu a posição do periódico como “humilhação” e “execração pública”.

O goleiro recebeu apoio da direção do Flamengo e, especialmente, do presidente do clube. “Estamos falando de um ser humano que tem filho, pai e mãe, como todos nós aqui, e que foi vítima dessa covardia”, disse Eduardo Bandeira de Mello.

Novas falhas e fora até do banco na Copa Sul-americana

Com Diego Alves em condições de jogo, Muralha dificilmente voltaria a defender a meta do Flamengo. Porém, o arqueiro titular sofreu uma fratura na clavícula durante o primeiro jogo da semifinal da Copa do Brasil, contra o Junior Barranquilla.

Menos de um minuto depois de entrar em campo para substituir Diego, Alex Muralha sofreu um gol. No entanto, o Flamengo virou e saiu do Maracanã com a vantagem do 2 a 1. No jogo seguinte, pelo Campeonato Brasileiro, o time carioca recebeu o Santos. Inicialmente, Muralha foi apoiado pela torcida, mas a noite acabou se tornando um pesadelo para o atleta de 27 anos.

No primeiro tempo, quando o Flamengo vencia por 1 a 0, Muralha tentou driblar o atacante Ricardo Oliveira, perdeu a bola e o Santos empatou. A partir dali, o goleiro foi xingado até o apito final. Se não bastassem as vaias, ele ainda falhou no segundo gol santista, que decretou a derrota rubro-negra.

Os erros de Muralha, é claro, aumentaram a enxurrada de críticas. Enquanto os jornalistas destacavam sua incapacidade técnica e psicológica para continuar defendendo o Flamengo, houve quem saísse em defesa do atleta. O narrador Galvão Bueno destacou o momento triste para a família de Muralha, enquanto o comentarista Mauro Cézar Pereira “dividiu a culpa” com a diretoria do Flamengo.

No intervalo do jogo contra o Santos, Muralha declarou, em entrevista ao SporTV, que uma imagem de um goleiro ruim havia sido construída pelos críticos. Na partida seguinte, ele nem sequer ficou no banco de reservas do Flamengo contra o Junior Barranquilla, na Colômbia. O técnico Reinaldo Rueda optou por César, que não jogava há dois anos.

Apesar do período de inatividade, o goleiro revelado na Gávea teve ótima atuação, com direito a defender um pênalti no triunfo do time carioca, assegurando a classificação para a final da Copa Sul-Americana. Na decisão, o Flamengo enfrentará o Independiente.

Quando as críticas geram sofrimento para a família dos atletas

O posicionamento de Galvão Bueno sobre a família de Alex Muralha estava certo. As críticas impactaram diretamente os familiares do atleta, que expôs publicamente o seu sofrimento. “Eu fiquei emocionado, porque até então não sabia que minha mãe foi ao médico e começou a tomar remédio para dormir. Minha mãe é muito simples. Chegar onde cheguei é muito grande. A gente morava em casa de pau a pique. Estar nesse patamar é uma coisa muito grande. É complicado você ver uma pessoa que desde pequeno te dá tudo e está sofrendo. Tenho certeza que coisas boas virão”, disse o goleiro, que revelou ter sofrido ameaças e pediu desculpas aos torcedores.

“Nós jogadores temos muito pouco tempo nas câmeras. Hoje, há muitos programas de esporte, e nós temos pouco tempo para falar. Queria dizer que acordo todo dia às 6h, treino muito, mas as coisas não estão dando certo. Provavelmente, Deus vai nos mostrar a razão disso. Queria pedir desculpas pelas minhas falhas. Ninguém entra em campo para falhar. É um ano para tirar muitos aprendizados”, acrescentou.

O choro do filho de Márcio Araújo

As críticas a jogadores do Flamengo não se concentram apenas em Muralha. Embora tenha construído carreira sólida no Atlético Mineiro e também no Palmeiras, Márcio Araújo é bastante contestado pela torcida rubro-negra e também pela imprensa.

Em um dos momentos em que o volante convivia com forte pressão, uma imagem mostrou como as críticas impactam quem está ao redor dos jogadores. Na vitória do Flamengo sobre o Fluminense, pela Copa Sul-Americana, o filho de Márcio Araújo foi flagrado chorando copiosamente no Maracanã.

O ex-volante Zé Elias, hoje comentarista da ESPN, alertou sobre as consequências das críticas aos jogadores. “Vivi essa situação e sei o quanto complicado. Existem críticas normais, em relação a posicionamento e parte técnica. Quando extrapola, é pesado. Atrás do camisa 5 existe uma família, uma criança. Temos de tomar cuidado, porque nós formamos opinião. Somos nós que colocamos que o jogador é o grande culpado, e não a equipe de forma geral, não o trabalho mal feito de um treinador ou o centroavante que perde a chance de matar a partida. É preciso saber encontrar o limite da crítica. Quando extrapola, machuca a família”, destacou.

O funil estreito e a depressão no futebol

Zé Elias ressaltou que muitos utilizam o argumento de que jogadores ganham bem como fator para criticá-los de forma pesada. Porém, os altos salários são consequência do retorno que eles proporcionam a seus clubes.

Hoje treinador da Seleção Brasileira, Tite, conforme revelou reportagem da revista Época,  já se sentiu incomodado por receber R$ 500 mensais no Corinthians, clube pelo qual foi campeão brasileiro, da Copa Libertadores e mundial. Em resposta ao desabafo do treinador, o diretor de comunicação corintiano Guilherme Prado ponderou: “Professor, sabe quanto o Corinthians fatura? Quatrocentos milhões de reais num ano. Você ganha isso para ser responsável por tudo isso aí. É só fazer a conta que você vai ver que não ganha muito”.

O salário de treinadores e atletas é consequência também da dificuldade em atingir o posto que eles ocupam. No vídeo acima, Zé Elias lembrou que o funil é muito estreito para os jogadores de futebol. A impossibilidade de chegar ao time profissional é motivo de depressão para muitos jovens que buscam nos gramados a chance para uma vida melhor.

Em carta sobre o ex-goleiro Robert Enke, que cometeu suicídio em 2009, o zagueiro da Seleção Alemã Metersacker ressaltou a dificuldade em alcançar o futebol profissional e os impactos psicológicos para quem não chega ao fundo do funil.

“No próximo verão, ao fim da minha carreira profissional, serei treinador das categorias de base do Arsenal, em Londres. E há um problema estrutural no setor júnior que também pode pressionar a mente: 80% dos garotos que assinam contrato de experiência, como jovens profissionais na Inglaterra, aos 16 anos, estão desempregados aos 18. Isso é um fato porque simplesmente não há mais espaço nos times masculinos dos clubes profissionais”, destacou.

“Mas poucos estão preparados para isso, poucos pensaram em outra profissão. A Federação Inglesa está tratando do problema com mais agressividade, com orientação de carreira e serviços de doenças mentais. Mas quantos pulam a própria sombra para aceitar ajuda? Se não conseguem admitir para si mesmos, não vão se tornar profissionais”, complementou o zagueiro do Arsenal.

Assim como John McEnroe, os jovens citados por Metersacker convivem com a autocrítica antes mesmo de sofrerem a pressão da imprensa. Mas, ao chegar ao status de estrela, eles saberão suportar as cobranças? E quando entenderem que essas críticas se tornaram perseguição? Afinal, quem critica o crítico?

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