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Futebol, outros esportes e marketing digital por Gustavo Andrade

Uma noite em La Bombonera sem La 12, a torcida mais temida do mundo

La 12 La BomboneraUm dia depois de chegar a Buenos Aires e ver o River Plate ser eliminado pelo Independiente del Valle, no Monumental de Nuñez, foi a vez de acompanhar o Boca Juniors em La Bombonera. O time xeneize receberia o Cerro Porteño, em disputa por uma vaga nas quartas de final da Copa Libertadores.

Se foi uma verdadeira saga para conseguir um ingresso para o jogo do River, a compra de um bilhete para ver o Boca em La Bombonera foi muito mais tranquila. O hostel onde estava hospedado oferecia um pacote para ver o duelo com o Cerro, com direito a transporte de ônibus de ida e volta.

Entretanto, nem tudo foi tão tranquilo assim. Neste post, contarei as diferenças entre as torcidas de River Plate e Boca Juniors e a atmosfera que cerca La Bombonera. E tudo isso em um jogo com um contexto completamente atípico. La 12, a torcida organizada do Boca, conhecida como um das mais temidas do mundo, não estava no estádio, embora fosse um jogo decisivo da Libertadores. Quer saber o motivo? Continue lendo que você entenderá.

As diferenças entre as torcidas de River e Boca e o ambiente de La Bombonera

Como disse, as diferenças entre os jogos de River e Boca começaram pela compra de ingressos. Entretanto, isso não passa de uma questão de logística e sorte. Não conseguimos comprar ingressos para a partida no Monumental porque a venda se encerrava na véspera, e nós só chegamos em Buenos Aires no dia do jogo.

As reais diferenças entre as torcidas dos dois maiores times da Argentina puderam ser percebidas logo no ônibus contratado para nos levar ao estádio. Em um grupo recheado de ingleses que estavam hospedados no nosso hostel, eu e os amigos Gustavo e Pedro éramos os únicos brasileiros. Mas qual o ponto que mais chamou atenção? Ao nos entregar os ingressos do jogo entre Boca Juniors e Cerro Porteño, o guia nos orientou a ficarmos calados até chegar a La Bombonera.

“Nós vamos parar o ônibus em uma avenida perto do estádio. Desçam do ônibus e me sigam até La Bombonera sem falar nada. Se perceberem que vocês são turistas, os torcedores do Boca não vão gostar. Eles têm a sensação de que as pessoas de fora estão tirando lugares no estádio que deveriam ser deles”, explicou.

Gustavo, Pedro e eu logo nos desligamos do grupo. Faltava muito tempo para começar a partida, e nossa intenção era conhecer um pouco mais de tudo que cerca uma partida em La Bombonera.

La Bombonera x Monumental de Nuñez

O ambiente do bairro La Boca é bem distante daquele que encontramos nas redondezas do Monumental de Nuñez. Enquanto o bairro do estádio do River Plate está na região mais rica de Buenos Aires, La Bombonera fica em um bairro pobre. A riqueza do Monumental é substituída por um cenário cercado por tensão.

Se muitos dos torcedores do River Plate chegavam bem vestidos ao Monumental, o entorno do estádio do Boca lembrava mais aquele que encontramos no Brasil. E com detalhe especial para a venda de cervejas e comida nas ruas de La Boca.

Cerveja proibida e choripan

A venda de cerveja nas ruas mais próximas à La Bombonera é proibida. Mas isso não quer dizer que as pessoas não bebam. Ao andarmos no sentido contrário ao estádio, encontramos uma loja com as grades já fechadas, mas ainda atendendo quem chegava para o jogo.

Pelas grades, os torcedores entregavam o dinheiro e recebiam sacos plásticos pretos. Foi utilizando esse recurso que conseguimos comprar as cervejas e mantê-las escondidas da polícia argentina.

Enquanto a venda de cervejas é proibida, não é difícil encontrar barracas que comercializam o “choripan”. O sanduíche de linguiça é a refeição tradicional dos torcedores argentinos em estádios de futebol. Uma dica: quando puder, experimente o chori. Vale a pena!

Vacilo com o espanhol pode comprometer

Já devidamente alimentados e depois de conseguirmos comprar cervejas, era a hora de, enfim, entrar em La Bombonera. Assim como já havia acontecido no Monumental de Nuñez, há diversas barreiras policiais até o estádio. Ao passar por elas, os torcedores, além de serem revistados, têm de mostrar os ingressos em mãos.

A presença da polícia é justificada. Como já disse, o entorno do estádio transmite uma sensação de tensão. Perto de nós, um torcedor, aparentemente um cambista, foi agredido por outro violentamente. As agressões, entretanto, não duraram muito, e policiais logo intervieram.

Porém, na passagem pela primeira barreira, um vacilo quase me comprometeu. Contrariando a orientação do guia, que havia pedido que não falássemos nada, eu cumprimentei o segurança com um “boa noite” em espanhol. A resposta não foi positiva. Ele olhou para minha cara e quis saber de onde eu era. Vestido com uma camisa do Boca e com um cachecol amarelo e azul, respondi que era brasileiro, mas que tinha um ingresso em mãos. O segurança hesitou, mas me deixou passar.

Acabei descobrindo que argentinos não falam “buenas noches”. Informalmente, eles se cumprimentam apenas com “buenas”. Daí o estranhamento do segurança.

La Bombonera com Tévez, mas sem La 12

Assim como havíamos visto D’Alessandro liderar o River Plate, Carlitos Tévez era claramente a grande referência do Boca Juniors. O craque xeneize havia voltado às suas origens para tentar levar seu time a mais um título da Copa Libertadores.

Em campo, Tévez destoava. Os zagueiros paraguaios mal conseguiam passar perto de desarmá-lo. Mas, nas arquibancadas, o cenário era pouco usual.

Logo que vimos o gramado percebemos que havia algo de estranho. Praticamente, todas as faixas da torcida do Boca Juniors estavam de cabeça para baixo. No setor em que estávamos — o mesmo em um ataque de gás de pimenta a jogadores do River Plate havia eliminado o Boca da Libertadores no ano anterior —, uma faixa branca continha uma frase pichada em preto: “Libertad para los pibes detenidos en Paraguay”.

A violência de La Doce no Paraguai

Afinal, o que queria dizer aquela faixa? Ao longo do jogo, não conseguimos entender bem o que significava. A torcida do Boca não demonstrava o incentivo incessante que esperávamos. Embora houvesse momentos em que os gritos paravam, os torcedores tinham uma reação imediata quando o time passava sufoco. Bastava o Cerro Porteño atacar para que as arquibancadas ficassem inflamadas.

O Boca jogava em vantagem depois de ter vencido o primeiro jogo, em Assunção, por 2 a 1. Logo aos 3 minutos do confronto em La Bombonera, Tévez, em cobrança de pênalti, abriu o placar, fazendo a torcida descer as arquibancadas como numa avalanche, em movimento copiado pelos torcedores do Grêmio.

O Cerro chegou a ameaçar quando empatou com Rodrigo Rojas e, em seguida, acertou a trave. Na etapa final, os gols de Pávon e Pérez decretaram a vitória do Boca Juniors por 3 a 1 e a classificação para enfrentar o Nacional do Uruguai na fase seguinte — em um outro post, ainda contarei como foi assistir ao Nacional duelar com o Peñarol no lendário estádio Centenário, no maior clássico do futebol uruguaio.

A partida entre Boca Juniors e Cerro Porteño chegou ao fim, e nós voltamos com certa tranquilidade até o ponto de encontro onde estava o ônibus previsto no pacote vendido pelo hostel. Mas ainda não entendíamos bem o que queria dizer aquela faixa que falava sobre os “garotos presos no Paraguai”. Tampouco havíamos identificado a razão pela qual as demais faixas estavam de cabeça para baixo. A resposta veio quando compramos o jornal Clarín e o diário Olé no dia seguinte.

Tidos como alguns dos torcedores mais temidos do mundo, os membros de La Doce haviam sido presos no Paraguai quando foram ao país vizinho acompanhar o jogo de ida do confronto com o Cerro Porteño, pelas oitavas de final da Libertadores. Mas não foram poucos que pararam atrás das grades. A polícia paraguai prendeu 237 integrantes da barra brava do Boca Juniors. E os motivos das prisões são dignos de uma torcida a ser temida:

  • Conflito com torcedores do Cerro Porteño
  • Depredação de carros e patrimônio público nas ruas de Assunção
  • Assaltos a cidadãos paraguaios e saques a comerciantes
  • Invasão de uma residência de um torcedor do Cerro

Acompanhe no vídeo um poucos desses momentos de violência na capital paraguaia.

Líderes de La Doce expulsos do Paraguai e “buraco” na torcida em La Bombonera

Pelo noticiário da imprensa argentina, percebemos o que realmente havia acontecido em La Bombonera na partida entre Boca Juniors e Cerro Porteño. Nós ficamos posicionados atrás de um dos gols, no setor inferior. O setor acima de onde estávamos seria o local em que se posiciona La 12.

Sem seus líderes, que seguiam presos no Paraguai, os membros da torcida organizada do Boca deixaram um buraco no meio da arquibancada. Por orientação dos membros da Doce, todas as faixas ficaram de cabeça para baixo, com exceção daquelas que apresentavam as mensagens “La Doce unida jamás será vencida” e “Jugador N°12”.

Enquanto o Boca eliminava o Cerro Porteño na Libertadores, os líderes de La 12 aguardavam pela chegada de seu advogado ao Paraguai. Diego Storto foi a Assunção para pagar uma fiança de 100 mil pesos argentinos. Mauro Martín e os irmãos Fernando e Rafael Di Zeo, além de outros três integrantes da barra brava, foram expulsos do Paraguai com a sentença de que estariam impedidos de retornar ao país em qualquer circunstância. Com eles, a polícia paraguai apreendeu armas, cocaína e bebidas alcoólicas.

A punição foi o motivo que impediu que 100 torcedores do Boca Juniors entrassem no Paraguai no último mês de agosto, quando o time xeneize foi convidado pelo Cerro Porteño para o amistoso de reinauguração de La Olla — tive a oportunidade de conhecer o estádio na cobertura do confronto entre Cerro e Cruzeiro pela Libertadores de 2014 e constatei como a estrutura era precária.   

Mas o episódio em Assunção não é um caso isolado para La 12. Rafa Di Zeo e Mauro Martín têm um longo histórico de violência, subornos, tráfico de drogas e ameaças a dirigentes e jogadores.   

Quem são Rafael Di Zeo e Mauro Martín?

Rafael Di Zeo e Mauro Martín são figuras muito conhecidas na Argentina. Líderes de La 12, eles são tidos como “donos” do Boca Juniors. Os diversos episódios de violência protagonizados pelos dois barra bravas os levou a serem proibidos pela polícia argentina de frequentarem estádios de futebol no país. Justamente por isso eles não perderiam a chance de ir ao Paraguai assistir ao jogo contra o Cerro Porteño.

Di Zeo e Martín são “discípulos” de José Barrita, o Abuelo, responsável direto por transformar a torcida organizada La 12 em uma máfia, que participa do tráfico de drogas em Buenos Aires, pratica cambismo com ingressos cedidos pela diretoria do Boca Juniors e recebe propinas pagas pelos jogadores do Boca Juniors. Um dos maiores ídolos da história do clube xeneize, o ex-atacante Martín Palermo dedicava gols aos líderes da barra brava e chegou a visitá-los quando foram presos.

Sucessores em uma máfia

A história de Rafa Di Zeo e Mauro Martín é contada pelo jornalista Gustavo Grabia no livro “La Doce – a Explosiva História da Torcida Organizada Mais Temida do Mundo”.  Eles são sucessores de José Barrita, que levou La 12 a explorar estacionamentos nas ruas ao redor de La Bombonera, participar do tráfico de drogas e explorar a boa vontade de jogadores do Boca — aqueles que não contribuíam com a torcida eram perseguidos.

Barrita morreu na cadeia aos 48 anos, em consequência de uma pneumonia. Seu antigo braço direito, Rafael Di Zeo assumiu o comando de La 12, manteve o cenário de violência e tornou ainda mais comuns os conflitos com Los Borrachos del Tablón, torcida organizada do arquirrival River Plate.

Di Zeo começou a se envolver com sindicatos, ampliou o cambismo e levou La 12 a ter participação em negociações de jogadores das categorias de base do Boca. Porém, a principal fonte de receita da torcida organizada foi o apoio a políticos ligados ao esporte, como Mauricio Macri, atual presidente da Argentina e antigo mandatário do Boca Juniors.

Di Zeo absolvido de acusação de homicídio

Preso por porte de arma de fogo em 2007, Di Zeo foi acusado de ser o mandante de uma tentativa de assassinato de Richard Laluz Fernández, conhecido como El Uruguayo, que havia se tornado seu amigo na cadeia.

El Uruguayo, que está numa cadeira de rodas, viu Di Zeo ser absolvido em julgamento que gerou polêmica na Argentina, já que líder de La Doce o acompanhou mexendo no celular, além de ter cumprimentado todos os policiais após o veredito. Preso pelo porte de 15kg de cocaína, Richard Laluz Fernández recebeu prisão domiciliar e usa tornozeleira eletrônica.

Rafael Di Zeo e Mauro Martín: de aliados a inimigos e, novamente, aliados

Quando Di Zeo foi preso em 2007, seu braço direito Mauro Martín foi apontado como o novo líder de La 12. Porém, quando Rafael Di Zeo deixou a cadeia quatro anos depois, Martín não quis ceder o comando da barra brava, o que iniciou um conflito com novas tentativas de assassinato.

Em 30 de outubro de 2011, em um jogo entre Boca Juniors e Atlético Rafaela, Di Zeo foi recebido como herói por torcedores que o mantinham como a referência de La Doce, enquanto outros membros da organizada seguiam fiéis a Mauro Martín. Essa divisão gerou ameaças de morte. Di Zeo e Martín foram então proibidos pela Justiça argentina de entrar no estádio até o fim daquele ano.  

Já em 2012, a mando de Di Zeo, um ônibus de La 12 foi metralhado após uma partida em Santa Fe. Mauro Martín foi atingido na barriga, mas se salvou.

Em janeiro do ano seguinte, foi a vez de Martín ser acusado do assassinato de Ernesto Cirino, um vizinho de seu cunhado. Ele alegou ser inocente e ter tentado separar a briga.

Já em julho de 2013, antes de um clássico entre Boca Juniors e San Lorenzo, as duas facções de La 12 se enfrentaram em um conflito que deixou dois mortos.

Depois de negociações entre os dois grupos, eles voltaram a se unir, com Rafael Di Zeo como o chefe de La 12 e Mauro Martín como “vice”. Em partida contra o Zamora, na Venezuela, pela Libertadores, em março de 2015, os dois barra bravas foram fotografados cantando abraçados.

Mauro Martín Rafael Di Zeo

Qual a relação de Mauricio Macri com a barra brava do Boca Juniors?

A força de La 12 também está relacionada à política. Atual presidente da Argentina, Mauricio Macri chegou ao poder com a ajuda de seu envolvimento com o Boca Juniors. O político foi presidente do clube de La Boca entre 1995 e 2007. Sua popularidade com a torcida do time xeneize e a proximidade dos membros da barra brava o ajudaram a conseguir a votação que o levou à Casa Rosada.

Empresário e milionário, Macri já havia sido por duas vezes prefeito de Buenos Aires. Eleito presidente em dezembro de 2015, deu fim a 12 anos de kirchnerismo na Argentina.

Como a AFA apoia La 12 em duelo decisivo da Argentina nas Eliminatórias

Embora sejam tidos como muito perigosos, os membros de La 12 são vistos também como uma torcida capaz de pressionar qualquer adversário. Não é à toa que eles receberam da Associação do Futebol Argentino (AFA) 4 mil ingressos para o duelo decisivo da Seleção Argentina contra o Peru, em La Bombonera, pelas Eliminatórias Sul-Americanas para a Copa do Mundo de 2018, na Rússia.

Mesmo impedidos de entrar em estádios na Argentina, Di Zeo e Martín receberam as entradas do presidente do Boca Juniors, Daniel Angelici, que também é um dos vices da AFA. Para revender os bilhetes, torcedores têm anunciado as entradas como brindes na comercialização de uma caneta, em ofertas por R$ 545.

A Argentina precisa vencer o Peru para não correr sério risco de ficar fora da zona de classificação para a Copa do Mundo da Rússia.

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