Esporte & Marketing
Futebol, outros esportes e marketing digital por Gustavo Andrade

Como referendo pela independência da Catalunha deixou o Camp Nou vazio e abalou a política do Barcelona

Camp Nou com portões fechadosO dia 1° de outubro estará eternamente marcado na história da Espanha e, especialmente, da Catalunha. Neste domingo, os catalães votam em referendo pela independência da região. Porém, a votação foi apontada como ilegal pelo governo espanhol, que tenta decretar o “fim da farsa” e impedir o acesso aos locais que receberiam as respostas à pergunta “Quer que a Catalunha seja um Estado independente sob a forma de república?”. Em resultado divulgado após 0h no horário local, mais de 90% votaram pelo sim.

Foram registrados mais de 800 feridos nos confrontos com a Polícia e a Guarda Civil, que enviaram mais de 10 mil homens à Catalunha. Por consequência desses conflitos e do ambiente de tensão que rondou Barcelona, a partida entre o Barcelona e o Las Palmas, pelo Campeonato Espanhol, acabou sendo realizada com portões fechados — vencida pelos donos da casa por 3 a 0, com dois gols de Lionel Messi e um de Busquets. No entanto, a decisão de a bola rolar foi a contragosto de dirigentes do Barça e transpareceu como a disputa política é levada ao futebol. Continue a leitura e entenda melhor.

A votação pela independência da Catalunha: motivos políticos, culturais e econômicos

A votação pela independência da Catalunha é um desejo antigo dessa região, mas o apoio à separação da Espanha não é uma unanimidade entre os catalães. Uma pesquisa realizada pelo governo local em julho indicou que 49% dos catalães eram contrários à independência, contra 41% favoráveis. Já 48% gostariam que o plebiscito acontecesse de qualquer maneira.

Internacionalmente, o referendo não recebeu grande apoio. A União Europeia pediu ao governo catalão que respeitasse a decisão do Tribunal Constitucional, que indicou a ilegalidade da votação. A UE informou ainda que só reconheceria o resultado do plebiscito caso fosse feito de forma legal. Somente a Venezuela apoiou diretamente a votação pela independência da Catalunha.

Afinal, por que a Catalunha quer se separar?

A decisão por um plebiscito para a separação da Catalunha, ainda que não tenha apoio da maioria dos catalães, envolve motivos culturais, políticos e econômicos. A região, localizada no nordeste espanhol, mantém forte cultura, valorizada pelo idioma catalão, que chegou a ser proibido durante o período de ditadura na Espanha. São 7,5 milhões de habitantes, ou 15% da população espanhola — é a segunda maior comunidade da Espanha, atrás apenas da Andaluzia.

Economicamente, a Catalunha é extremamente forte na Espanha, com representação de 19% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Os independentistas alegam que a contribuição catalã para o orçamento nacional, que financia todas as demais regiões espanholas, não se reflete em apoio econômico à Catalunha.

A discussão sobre a separação ganhou mais força nos últimos anos. A região, assim como outras 16, já é autônoma na Espanha. Porém, em setembro de 2015, foi eleito um governo regional pró-independência, encabeçado por Carles Puigdemont.

As comunidades autônomas estão previstas na Constituição Espanhola desde 1978, depois de ser encerrada a ditadura franquista, que centralizava o poder no país. Com a autonomia dada a 17 regiões, foi permitido que essas comunidades aprovem leis e realizem tarefas executivas estabelecidas em estatutos próprios.

O próprio presidente da Catalunha não conseguiu votar pela independência da região, uma vez que a Guarda Civil impediu o acesso ao ginásio onde ele voltaria. Carles Puigdemont afirmou que o Estado espanhol promove uma “violência injustificada”.

A relação do Barcelona com a independência da Catalunha

Reconhecido como um dos maiores clubes do mundo, o Barcelona é uma força cultural da Catalunha. Tradicionalmente, aos 17 minutos e 14 segundos de todas as partidas no Camp Nou, os torcedores do Barça cantam pela independência catalã — uma referência ao ano 1714, quando Barcelona caiu na Guerra de Sucessão espanhola.

No entanto, os gritos pela independência não foram ouvidos no Camp Nou neste 1° de outubro. A partida entre Barcelona e Las Palmas, pelo Campeonato Espanhol, foi realizada com portões fechados. A diretoria do Barça chegou a pedir oficialmente que o jogo fosse adiado, mas a direção da Liga Espanhola não acatou a solicitação.

Com garantias de segurança das autoridades envolvidas na organização, a bola rolou sem a presença da torcida. Um grupo de torcedores do Barcelona chegou a divulgar um comunicado oficial de que invadiria o gramado logo a um minuto de jogo.

O Barcelona entrou em campo com um uniforme listrado em vermelho e amarelo, numa clara referência às cores da bandeira da Catalunha — o time, entretanto, jogou com seu uniforme tradicional em grená e azul.

A realização da partida estremeceu os bastidores do Barcelona. Um dos membros da cúpula do Barça, Carlos Vila Rubí anunciou sua saída da direção depois de o clube confirmar a disputa do jogo contra o Las Palmas.

O Barcelona não se posiciona oficialmente sobre a independência da Catalunha, mas apoia o referendo e “o livre exercício dos direitos dos cidadãos”. O presidente Josep Maria Bartomeu divulgou comunicado em que afirma que a decisão de jogar contra o Las Palmas com portões fechados é uma demonstração para a comunidade internacional de como o povo catalão está sofrendo.

Segundo o jornal Marca, parte dos jogadores eram favoráveis à realização da partida no Camp Nou. Um dos principais atletas do elenco, o zagueiro Gerard Piqué participou da votação da Catalunha e fez questão de registrar seu voto em sua conta pessoal no Instagram.

O que acontecerá com o Barcelona se a Catalunha se tornar independente?

Diante da possibilidade de a Catalunha se tornar independente, uma dúvida surge: como ficaria o Barcelona? A Liga Espanhola informou que, se a separação da Espanha for confirmada, o time de Lionel Messi não participará mais do Campeonato Espanhol. O presidente da entidade, Javier Tebas, afirmou que o clube será expulso da liga nacional.

Recentemente, o então primeiro-ministro da França, Manuel Valls, que nasceu em Barcelona, se manifestou favorável à participação do Barça no Campeonato Francês. Ele usou o exemplo do Monaco, que é atual campeão da liga do país.

Também poderia ser criada a Liga Catalã. Além do Barcelona, Espanyol e Girona disputam atualmente a Primeira Divisão do Campeonato Espanhol. No entanto, essa opção poderia prejudicar o acesso do time de Messi à Liga dos Campeões e demais competições da Uefa por critérios técnicos de distribuição de vagas aos países europeus.

Seleção da Catalunha

Há alguns anos, a Seleção da Catalunha, sem ser reconhecida pela Fifa, disputa amistosos. Se a independência for confirmada, Piqué, Jordi Alba e Sergio Busquets, alguns dos principais jogadores do Barcelona, deixariam a Seleção Espanhola, assim como Fàbregas, que defende o Chelsea.

Em sua última apresentação, em dezembro de 2016, a Seleção Catalã foi derrotada pela Tunísia nos pênaltis, depois de empate por 3 a 3. A Catalunha atuou com a seguinte formação: Masip (Edgard Badía), Liola (Valentín), Fontás (De la Bella), Sergi Gómez (Marc Crosas), Aaron (Víctor Álvarez), Xavi (Oriol Riera), Sergi Roberto (Pere Pons), Marc Roca (Samper), Víctor Rodríguez (Verdú), Gerard Moreno (Álvaro Vázquez) e Sergio García.

Gostou da escalação da Seleção da Catalunha? O que você acha de o Barcelona ficar fora da Liga Espanhola? Aproveite e compartilhe também sua opinião sobre a independência da Catalunha.

post similares
  • Alex Muralha no Flamengo e o limite entre a crítica e a perseguição “Você sabe que, quando entro em quadra, eu dou tudo de mim pelo jogo? Quando estou na quadra, tudo fica de lado. E nenhum de vocês entende isso, porque nenhum de vocês joga”. A declaração dada por John McEnroe foi retratada no filme Borg vs McEnroe, que leva ao cinema uma das maiores rivalidades da [...]
  • Afinal, marketing ajuda a conquistar torcedores? Ao assumir a presidência do Atlético Mineiro, em novembro de 2008, Alexandre Kalil dissolveu o departamento de marketing do clube alvinegro. O atual prefeito de Belo Horizonte alegava que esse departamento gerava prejuízo e dizia que, no futebol, “marketing é bola na casinha”. Assim, o Atlético ficou sem departamento de marketing por 7 anos, até [...]
  • Quem é a Rakuten? Conheça a patrocinadora de Barcelona e Golden State Warriors Com expectativa de ser uma das mais atraentes dos últimos anos, a temporada 2017/2018 da NBA começa nesta terça-feira, com o duelo entre Cleveland Cavaliers e Boston Celtics. Os torcedores que esperam pelas novidades de uma série de trocas de jogadores — como a que envolveu Kyrie Irving e Isaiah Thomas — verão outra novidade [...]
  • Futparódias: futebol, música e humor em mais de 275 milhões de visualizações em 9 meses Junte futebol, música e humor, alie experiências anteriores com audiovisual e, assim, crie um fenômeno do Youtube. É mais ou menos assim que funciona o Futparódias, uma vasta coletânea de músicas que estão bombando, transformadas em paródias com letras que exploram o que há de mais quente no futebol mundial.   Neste post, recheado de [...]
  • #NoEraPenal: a vingança do México contra a Holanda e Arjen Robben Algumas rivalidades no futebol marcam os duelos entre seleções. Provavelmente, nenhuma delas supera a entre brasileiros e argentinos. Porém, os argentinos alimentam uma forte rivalidade também com a Inglaterra, em consequência da Guerra das Malvinas. Outras grandes disputas surgem ao longo dos anos por circunstâncias de duelos em jogos decisivos ou lances peculiares. Foi assim [...]

Comentários recentes

    Categoria

    %d blogueiros gostam disto: