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Futebol, outros esportes e marketing digital por Gustavo Andrade

Como vi o River ser eliminado no Monumental sem ter encostado num ingresso

River Plate, x Independiente del Valle, pela Copa Libertadores, no Monumental de NuñezA goleada do River Plate sobre o Jorge Wilstermann por 8 a 0 deu uma demonstração clara de como o time comandado por Marcelo Gallardo pode ser forte em jogos com o apoio de seu torcedor. O placar impressionante, com cinco gols de Nacho Scocco, foi muito mais do que suficiente para superar a derrota por 3 a 0 no jogo de ida, na Bolívia, e colocar o River nas semifinais da Copa Libertadores, diante do Lanús, que eliminou o San Lorenzo nos pênaltis.

Porém, a recuperação nesta edição da Libertadores não aconteceu em 2016. No ano passado, o River Plate foi eliminado no Monumental de Nuñez pelo surpreendente Independiente del Valle. Eu fui testemunha daquele revés, no primeiro de uma série de jogos que acompanhei in loco na Argentina durante minhas férias. Neste post, contarei como entrei no Monumental, fiquei no meio da torcida do time de Marcelo Gallardo, mas sem jamais ter encostado em um ingresso daquele jogo. Acompanhe!

A ideia de fazer um tour futebolístico na Argentina

Durante os cinco anos em que fui repórter do Superesportes, minhas férias sempre aconteceram entre abril e maio. Em 2016, decidi aproveitar esse período pra fazer algo que sempre sonhei: viajar para a Argentina, ir a jogos de diferentes equipes e ter, enfim, uma real experiência do que é o futebol portenho.

Compartilhei minha ideia com um grupo de amigos e dois deles, Gustavo Manetta e Pedro Vieira, aderiram ao Mauro Cézar Tour, em referência ao jornalista da ESPN e torcedor confesso do Racing.

A ideia deu muito certo e nós acabamos acompanhando três jogos da Libertadores, com River no Monumental, Boca Juniors em La Bombonera e Rosario Central no Gigante de Arroyito. Também vimos um duelo entre Racing e Estudiantes, pelo Campeonato Argentino, no El Cilindro, além do maior clássico uruguaio, Nacional x Peñarol, no lendário Centenário.

Pretendo escrever um post para cada jogo. Então hoje vou me concentrar em como foi a saga para ver River x Del Valle no Monumental de Nuñez. Para contar essa história, vou relacionar diversos personagens que foram fundamentais para a missão dar certo. Comecemos pelo taxista beijoqueiro!

Taxista beijoqueiro: o homem que nos encorajou

Nós, Gustavo, Pedro e eu, chegamos a Buenos Aires no mesmo dia em que River Plate e Independiente del Valle se enfrentariam. Esse foi o primeiro obstáculo para conseguirmos um ingresso. Havia venda de bilhetes pela internet, mas a retirada deveria ser feita até a véspera do jogo. No dia mesmo da partida, não eram comercializados mais ingressos. No hostel em que ficamos hospedados, o Milhouse, eles tinham um serviço para levar os turistas aos jogos. Mas, naquela semana, a partida escolhida era entre Boca Juniors e Cerro Porteño, em La Bombonera.

Diante da impossibilidade de comprar ingressos pela internet ou nas bilheterias do Monumental, nós só tínhamos uma forma de conseguir os bilhetes para ver o River jogar pela Libertadores: recorrer a cambistas.

Entretanto, a ideia não foi aconselhada por nenhum argentino do nosso hostel. Todos alertavam sobre a possibilidade de sermos passados para trás por alguém que percebe que éramos brasileiros.

Nós três decidimos, portanto, ir para algum bar assistir ao jogo do River e depois acompanhar Atlético x Racing, que se enfrentariam no mesmo dia, no Independência, também pela Libertadores.

Saímos do hostel e chamamos um táxi. Foi a partir desse momento que a história começou a mudar. Embarcamos no veículo de um simpático torcedor do Boca Juniors. Assim que puxamos papo sobre o jogo do River, ele não hesitou em nos oferecer um serviço extra: ir conosco até as redondezas do Monumental de Nuñez, conversar com cambistas e comprar os três ingressos.

Embora a missão não parecesse muito promissora, nós topamos. Afinal, a gente tinha ido para a Argentina para ter uma experiência no futebol portenho, e ver o River jogar a Libertadores era um ótimo jeito de começar. Para o sucesso dessa empreitada, uma segunda personagem foi vital.

O velhinho da barraca e o alerta sobre as fotocópias

Assim que chegamos perto do Monumental, não foi difícil encontrar cambistas. De dentro do taxi, nosso motorista negociou com um rapaz claramente alterado, por álcool ou drogas. Sem que nós falássemos uma palavra para que o cambista não percebesse que éramos brasileiros, o taxista rechaçou a possibilidade de comprarmos aquelas entradas.

Ele acabou estacionando o carro e fomos caminhando até encontrar novos cambistas. No meio desse trajeto, paramos em uma barraca de choripan (um sanduíche que é o equivalente ao tropeiro para os mineiros em estádio de futebol), e um senhor grisalho com discurso enfático reforçou aquilo que já havia sido avisado no hostel: “Não comprem ingressos na rua. São todos fotocópias. São todos fotocópias”, repetiu.

O alerta do velhinho da barraca foi salvador, mas parecia ter acabado de vez com nossa chance de ver o River Plate jogar pela Libertadores. No entanto, o taxista ainda seguia empenhado na missão de nos pôr dentro do estádio do maior rival de seu time de coração e nos colocou em contato com a terceira personagem dessa história.

Rambo, o segurança intermediário  

Até a entrada no Monumental de Nuñez, a polícia argentina e seguranças particulares fazem um forte esquema de segurança. E isso não é à toa, já que o futebol argentino tem um histórico recente de muita violência. Mesmo a adoção de torcida única não impediu dezenas de mortes.

Na primeira de várias barreiras até o estádio, os seguranças iniciam a revista em torcedores e exigem que tenham os ingressos em mãos. Nessa mesma barreira, um segurança de quase 2m de altura e extremamente forte foi determinante para que entrássemos no Monumental de Nuñez.

O nosso taxista ainda não havia abandonado a missão e conversou com o segurança, que, pelo porte físico, apelidamos carinhosamente de Rambo, embora não tivesse a mesma cabeleira de Sylvester Stallone.

Ele tinha um ingresso disponível. Nós tínhamos, portanto, de esperar por mais dois, que, obviamente, teriam os preços inflacionados. Como já estávamos ali, “aceitamos o jogo”.

O taxista se despediu com beijinhos, algo que estranhamos um pouco, mas é costume entre os argentinos. Num frio desgraçado em Buenos Aires, o Pedro não estava devidamente agasalhado. Nós três decidimos colocar um limite de horário para esperarmos, afinal poderíamos comprometer a saúde do amigo logo no primeiro dia de viagem.

Quando o limite já estava perto de se esgotar, surgiu a quarta personagem da história.

Donnie Brasco: o dono das credenciais do Monumental de Nuñez

O Rambo acabou apenas sendo mais um intermediário no processo de entrada no Monumental de Nuñez. Quando já nos preparávamos para ir a um bar ver o jogo, ele nos chamou, conversou com um senhor de cerca de 50 anos, 1,60m de altura, vestindo um sobretudo preto. Com ar de mafioso italiano, recebeu a alcunha Donnie Brasco.

Donnie era uma espécie de comandante do esquema de segurança. Todos o respeitavam. Ele nos colocou junto com um grupo de torcedores e iniciou a caminhada até o Monumental. Nós não fomos revistados uma vez sequer. Em todas as barreiras, Donnie ordenava que nos deixassem passar.

Na entrada do estádio, começamos a bater-papo com o típico mafioso, mas sem saber bem o que ainda aconteceria. Donnie, na realidade, não era torcedor do River. Seu time de coração era o Chacarita Juniors. Ele tirou da carteira uma foto em frente ao estádio do Chacarita e nos contou sobre um amistoso contra o São Paulo, que têm as mesmas cores do time argentino.

Donnie falava um espanhol difícil de entender. No fim das contas, só ficamos com uma informação: deveríamos recolher o valor acordado com o Rambo pelo três ingressos, colocar dentro de um passaporte e entregá-lo.

Putz! E agora? No primeiro dia de viagem, quem entrega o passaporte em outro país para um desconhecido com cara de mafioso? Pois é, a gente fez isso.  

Nós juntamos o dinheiro, algo em torno de R$ 300, e entregamos o passaporte para Donnie. Próximo à entrada do Monumental, ele pegou a grana, colocou no bolso, devolveu o passaporte e nos mandou esperar.

Depois de alguns minutos sem saber se seríamos passados pra trás, Donnie retornou e pediu que o acompanhássemos. Passamos pela catraca do Monumental de Nuñez e fomos até a entrada das arquibancadas. Donnie então se despediu, e nós, sem jamais ter encostado em um ingresso, fomos para o meio da torcida do River Plate ver a partida contra o Independiente del Valle.

A eliminação do River dentro de casa na Libertadores

A história poderia ter acabado ali, no momento em que Donnie Brasco nos colocou para dentro do Monumental. Mas ainda havia um jogo de Libertadores para acompanhar. E a primeira partida de Libertadores na Argentina não se esquece.

Embora o Olé tivesse falado o óbvio sobre a falta de tradição do Indepediente del Valle, o River voltou para a Argentina em desvantagem. No primeiro jogo no Equador, o time de Marcelo Gallardo foi derrotado por 2 a 0.

Nossa primeira impressão sobre a torcida do River não foi das melhores. Enquanto aguardávamos um sinal do Rambo, comecemos a ver torcedores muito bem vestidos chegarem ao Monumental, na parte mais rica de Buenos Aires. A impressão era de que seria uma torcida como as mais pacatas da Europa, que preferiria aplaudir a incentivar seu time a plenos pulmões. Ledo engano.

A torcida do River empurrou o time de Gallardo durante toda a partida. A festa com sinalizadores deixou o Monumental digno do nome que recebe. Foi maravilhoso. Em campo, o time era liderado por D’Alessandro. Porém, o Del Valle contou com uma noite incrível do goleiro Azcona. Alario até abriu o placar, mas a vitória por 1 a 0 não foi suficiente para levar o River Plate adiante na Copa Libertadores.

Na primeira de uma série de partidas, nós vimos o River Plate, então atual campeão da Libertadores, ser eliminado em casa pelo inexpressivo Independiente del Valle. Saímos do Monumental e fomos para um bar ver o Atlético jogar contra o Racing. Um grupo de ingleses, ao perceber que havia atleticanos no nosso grupo, decidiu torcer pela equipe argentina. No fim das contas, a boa atuação de Lucas Pratto ajudou o Galo a passar de fase. E nós, no dia seguinte, partiríamos para La Bombonera ver o Boca Juniors de Tévez, mas sem a número 12. Em breve, conto essa história!  

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