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Futebol, outros esportes e marketing digital por Gustavo Andrade

Cenas Lamentáveis, o Decreto e Alê Oliveira: um fenômeno da internet. Descubra!

Cenas Lamentáveis

Chegam 18h de sexta-feira e um post nas redes sociais declara, ou melhor, decreta aberto o fim de semana. É a hora de dar tchau para o chefe, se preparar para beber e resenhar com a galera e curtir a rodada dos campeonatos de futebol ao redor do mundo.

O Decreto é uma das marcas registradas do Cenas Lamentáveis, um verdadeiro fenômeno da internet. No Facebook, carro-chefe da CL, a marca de 610 mil seguidores já foi superada. No Instagram, são mais de 220 mil seguidores. E no Twitter, o Cenas Lamentáveis se aproxima de 100 mil pessoas acompanhando suas postagens.

Como essas marcas foram alcançadas? Neste post, vamos explicar um pouco dessa história, como o Decreto é um dos itens de um dialeto particular da CL e a relação com o comentarista Alê Oliveira, que trocou recentemente a ESPN pelo Esporte Interativo.

Como surgiu o Cenas Lamentáveis

Um grupo de futebol no whatsapp foi responsável pelo início da amizade dos fundadores da CL. Os publicitários Bruno Gonçalves e Marcus Vinícius Peixoto, o funcionário público Felippe Reis e o analista de sistemas Gustavo Restani criaram o Cenas Lamentáveis pouco antes da Copa de 2014.

“Os primeiros a terem a ideia foram o Gustavo e o Felippe. O mote eram vídeos de cenas lamentáveis, como brigas em final de jogo. Isso muito por causa do nome Cenas Lamentáveis, que os narradores falam. A ideia inicial era compartilhar lances grotescos, entradas duras e brigas famosas, como a entre Palmeiras e Corinthians, na final do Campeonato Paulista de 1999 (iniciada depois de o atacante Edilson fazer embaixadinhas no meio do gramado)”, explica Bruno.

Os fundadores do Cenas Lamentáveis não recorreram a postagens pagas para impulsionar seu crescimento nas redes sociais. Somente nos últimos meses, houve investimento em alguns posts comerciais. O crescimento orgânico foi estimulado, principalmente, pela ampliação dos assuntos abordados.

“Percebemos que tinha entrada para outro tipo de conteúdo, com coisas do futebol dos anos 90, programas e entrevistas de jogadores daquela época. Vimos que esses conteúdos geravam mais engajamento e seria melhor levantar a bandeira do futebol raiz. E isso abriu muito mais o leque de conteúdos”, acrescenta Bruno.

Além da página no Facebook e os perfis no Instagram e no Twitter, o Cenas Lamentáveis conta com um site, onde há espaço para assuntos que não teriam tanta projeção nas redes sociais. Uma equipe de 20 colaboradores, entre jornalistas ou estudantes de jornalismo, produz matérias sobre futebol alternativo e textos analíticos. Esse time ainda não é pago, mas a remuneração faz parte dos planos futuros da CL, que aumentou a popularidade do Decreto com uma ajuda do comentarista Alê Oliveira — ainda que não tenha sido proposital.

O Decreto e Alê Oliveira

Como foi citado no início deste post, o Decreto é uma referência quando falamos em Cenas Lamentáveis. “Surgiu lá em 2014. Começamos a postar ‘vamos beber, está liberado’. Um dia, não lembro quando, alguém escreveu a palavra decreto. Era uma liberação para beber na sexta-feira. A expressão decreto se consolidou, e a gente percebeu que aquele formato de post gerava engajamento”, conta Bruno Gonçalves.

Quem é o responsável por escrever os textos do decreto? “No começo, era o Felippe que fazia. Depois, a gente chega num momento que já tem um padrão de postagem, há um formato. Agora, o pessoal manda muita sugestão por inbox e frases para o decreto”, esclarece o publicitário.

O Decreto se tornou ainda mais famoso a partir do momento que Alê Oliveira usou a expressão no programa Bate-Bola, da ESPN. “Ele começou sem falar com a gente, mas não que precisasse falar. Nós não somos donos do decreto. Ele começou a fazer e, um dia, citou a página. Disse que a primeira vez que ele viu a palavra decreto foi no Cenas Lamentáveis. A partir daí, a gente começou a postar o decreto dele na ESPN. Muita gente pergunta se o Alê não nos prejudicou de alguma forma. Pelo contrário. E nós não éramos donos da expressão decreto”, explica Bruno.

Afinal, quanto o Cenas Lamentáveis cresceu após a divulgação feita por Alê? “É claro que o alcance da televisão não se compara, mas não é possível dizer o quanto que ele influenciou no nosso crescimento. Nós também fomos melhorando a qualidade dos nossos posts. É preciso tomar cuidado, porque muita coisa satura na internet. O próprio crescimento do Facebook é meio que exponencial. No começo, quando crescíamos de 5 mil para 10 mil seguidores era inacreditável. Agora, passamos de 580 para 600 mil sem perceber”, ressalta.

O primeiro contato dos fundadores com Alê Oliveira foi para uma entrevista para o site da CL. Posteriormente, os criadores da página foram chamados para participar do Media ESPN, um evento destinado a agências de publicidade. Uma pelada, com narração da equipe da emissora e participação de ex-jogadores, como Vampeta, Amaral e Flávio Conceição, antecede uma confraternização.

Mais tarde, Bruno Gonçalves e Felippe Reis foram chamados para participar do Bate-Bola. Entretanto, eles não foram ao ar na mesma edição em que Alê Oliveira participava. A direção da ESPN preferiu evitar o encontro no programa, já que um decreto do comentarista, com a expressão “quem viu o penta já aguenta”, havia gerado polêmica ao ponto de Alê deixar de fazer o decreto na TV.

Mim acher, descubra, Danone: o dialeto próprio da CL

O Decreto é um dos vários itens de um dialeto próprio do Cenas Lamentáveis. Nesse “idioma”, a cerveja é o Danone. Outras expressões, como “mim acher” e “descubra” ganharam projeção com vídeos feitos por Aloísio Chulapa, ex-atacante de São Paulo, Flamengo e Goiás.

No entanto, Chulapa não falava exatamente “mim acher”. “O Aloísio falava ‘mim ache’. Um dia, o Felippe digitou errado, e todo mundo começou a falar ‘mim acher’”, revela Bruno. “Já o Danone era uma expressão usada em pagodes. Tem coisas que a gente escreve e pegam, outras nem tanto”, complementa.

Adriano Imperador: o ídolo Didico

Além de um dialeto próprio, o Cenas Lamentáveis tem um ícone. O ex-atacante Adriano Imperador é considerado um ídolo para os criadores da página, que o tratam pelo apelido de infância Didico.

“Foi o primeiro cara que pegamos para ser ídolo da CL, porque é um cara que representa muita coisa que a gente defende. Jogava muito, conquistou muita coisa, disputou Copa, cansou, encheu o rabo de dinheiro e voltou para ficar com os amigos. Quem disse que ele tem de voltar a jogar? Inclusive, o apelido Didico, a gente sempre falou e muita gente não sabia”, comenta Bruno Gonçalves.

Zoeira, mas com limites

O Decreto e a idolatria a Adriano Imperador fazem parte de uma linha editorial da CL que defende o futebol raiz, mas não tem gozações contra times. Não há espaço para a zoação com o fracasso de uma equipe ou enaltecer as vitórias de outra. O Cenas Lamentáveis é “contra o clubismo”, e os próprios seguidores repreendem quem decide zoar um rival nos comentários.

No discurso que muitas vezes foge do politicamente correto, os criadores da CL mantêm uma autocensura, para impedir postagens que possam levar a interpretações preconceituosas. “A gente não faz nenhum tipo de ironia, nada em relação a qualquer tipo de preconceito. Nos comentários, é difícil segurar, mas, quando acontece, a gente tenta ocultar”, observa Bruno, que admite algumas críticas à linha seguida pelo Cenas Lamentáveis.

“Tem gente que critica por querer problematizar tudo, principalmente na internet. Mas tem gente que fala na boa, porque nós também erramos. Já houve casos em que apagamos o post e pedimos desculpa, porque pegou mal. No decreto mesmo, já mudamos um pouco da linguagem. Antigamente, era muito mais pesado. Hoje falamos um ou outro palavrão, mas não tem muita coisa absurda”, salienta.

Solidariedade no momento de dor

Foi num decreto pouco convencional que o Cenas Lamentáveis atingiu o post de maior engajamento da história da página. O acidente com o avião da Chapecoense antes da final da Copa Sul-Americana contra o Atlético Nacional de Medellín, na Colômbia, fez os criadores da CL a pensarem em não postar o decreto.

Porém, uma mensagem de solidariedade levou a 68 mil curtidas e quase 12 mil compartilhamentos no Facebook. “O nosso post com maior engajamento foi num momento triste, mas temos muito orgulho dele”, ressaltou Bruno Gonçalves.

Afinal, dá para ganhar dinheiro com o Cenas Lamentáveis?

Com postagens como a feita após o acidente da Chapecoense, o Cenas Lamentáveis demonstra seu grande potencial de gerar engajamento. Mas, afinal, os criadores da página conseguem ganhar dinheiro?

“A gente ganha dinheiro, mas nada que possa fazer alguém viver de Cenas Lamentáveis. Ganhamos com camisas, anúncios, post patrocinados, banner no site, além da Copa CL”, responde Bruno, que, assim como os outros três fundadores, mantém um emprego além da administração das redes sociais e do site do Cenas Lamentáveis. Eles aproveitam brechas durante o expediente para fazer as postagens.

Linha de camisas e a Copa CL

Em parceria com a marca 442, que possui uma linha de camisas com temas de futebol, o Cenas Lamentáveis lançou sua própria coleção. Já a Copa CL foi criada para reunir os seguidores de diversos locais do país.

“Sempre tivemos o sonho de fazer um evento para reunir seguidores. Eles mesmos pediam por uma reunião. A gente sempre valoriza nosso engajamento. Há muitas páginas sobre futebol, mas, sem dúvida, a CL é a de maior engajamento. E nada mais claro que unir futebol a cerveja”, destaca o fundador.

Em um dia inteiro de um torneio de futebol, há também open bar de cerveja acompanhado por uma banda de pagode. Já foram realizadas quatro edições da Copa CL, no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte, em Mossoró-RN e em São Paulo. São abertas inscrições para times por meio de um hotsite em que os seguidores concorrem a vagas no torneio. A história das equipes é um peso importante para determinar os escolhidos da Copa CL, que cobra inscrição dos participantes da competição e também vende convites para a confraternização.

Aos poucos, os fundadores do Cenas Lamentáveis aumentam sua receita. Mas, os momentos de realização já são muitos. “Ficamos muito felizes quando fomos convidados para participar do Bate-bola e também da premiação do Bola de Prata. Ainda perdemos muita oportunidade por não estarmos em São Paulo. E também não dá pra viver disso ainda”, afirma Bruno Gonçalves.

Você já curtiu o Cenas Lamentáveis? O que achou de conhecer a história da CL? Aproveite para compartilhar esse post com mais fãs de Didico e adeptos do Decreto!

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